quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Como esquecer

"desde o dia em que antônia foi embora da minha vida que eu me pergunto: o que será que é o contrário do amor? pra maioria o contrário do amor é ódio. não, muito óbvio. cheguei a conclusão que o contrário do amor é o estado permanente de perplexidade. uma perplexidade ferida que te prende numa armadilha de onde você só vai conseguir escapar com a ajuda de quem te abandonou

só uma coisa me faz respirar como respiraria uma montanha, profundamente: não depender mais do coração alheio. não olhar mais o relógio com angústia, quando um atraso pode significar desaparecimento. não estar mais ligada por um fio invisível a um corpo externo a mim

não havia mais nada escrito em mim. só lembro, de repente, eu me perguntando: será que esquecer é a mesma coisa que ter perdido?

talvez eu me arrependa, helena… mas agora eu preciso descobrir o que sobrou de mim mesma. não posso te arrastar para uma vida de comparações. você merece coisa melhor do que alguém acampado numa encruzilhada tentando enxergar o caminho, qualquer caminho
-o amor exige muito e eu tenho muito pouco pra dar-
nem sei se com este pouco se faz vida. as emoções escorrem, nada penetra. talvez eu me arrependa, helena, talvez".

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Eu não vou

Faz muito calor na cidade, nem parece. Dentro de mim, o frio é assustador, desses que nenhum casaco/cachecol/luvas dá conta. De repente voltei a me sentir a peça sobrando num quebra cabeças gigante. Eu não encaixo. Tudo dói e eu ainda sou a menina de 6 anos que chora encostada na porta trancada do próprio quarto, com aquela mesma vergonha de ter medo de deixar a mãe ir estudar e ela nunca mais voltar. Agora quem não volta sou eu, não tenho pra onde. Estou longe demais de qualquer coisa que me dê sensação de lar. Corro de um lado pro outro, ainda não tive tempo de conhecer meu prédio. Nem ânimo. Estou sempre cansada demais, sempre culpada demais, sempre ocupada demais. A cidade tenta entrar em mim de todas as formas, em vão, acaba por me engolir. Ainda assombrada pela sensação de não pertencer, volto pra casa. Tomo um banho demorado, acendo um incenso, ligo o notebook e tento assimilar que aqui é minha casa, que agora eu tenho casa. Tento assimilar que meus amigos estão à um ônibus de distância, que eu to no olho do furacão que tanto pleiteei. Se transformar no que eu quero dói. Todos os dias penso no conceito de solidão e solitude, tento pender mais pra solitude, mas é a solidão quem me alcança, quem me desgraça, quem me rasga. Resolvo encarar, tornar-me amiga dela, mas ela insiste em me ferir. Tudo que não é escolha, dói, porque meu mimo continua me acompanhando. Penso sobre qualquer outro lugar pra estar, escolho permanecer. É só o começo de um relacionamento muito sério, desses que assustam, desses que a gente pensa "putz, to namorando e agora alguém me salva" com uma cidade inteira. A parte boa é enorme, mas aceitar as ruins é doloroso. Não dá pra ter só o bom, então preciso escolher pra onde olhar. Mas olho pra frente e não vejo forma de sair dessa relação séria com essa cidade tão cedo, sempre fui péssima com projeções, mesmo fazendo-as diariamente. Fico angustiada. No fundo, é só saber o que esperar e não há frustração, dizem, porém já estou não esperando nada. Eu grito, grito mais alto. Feliz que não há ninguém pra ouvir minha loucura. Eu grito de novo, fico feliz por estar viva, por ter voz. Ainda sentada no chão do quarto penso no quanto eu sempre amei chãos e estar sentada em um não é um plus no drama, é só minha forma de estar no lugar mais confortável que eu conheço ao sentir dor. Belíssima metáfora que o lugar de maior conforto pra mim seja o chão. Sinto saudades. Todos os sentimentos presos em um nó na garganta. Eu não sou nada. E não ser nada é o que me salva.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Você tocando violão, deitando a cabeça sobre ele enquanto canta de olhos fechados: meu quadro favorito.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Terror do Rio, adeus.

Desde criança eu queria morar em Rio das Ostras, de modo que quando esta passou a ser minha cidade, não me soou como surpresa, mas como caminho. Eu vim pra cá disposta a m deixar modificar pela cidade, pela universidade, pelas pessoas. E acredito que eu tenha feito um bom trabalho.
Olhando agora, em retrospecto, vejo a menina de 19 anos que chegou aqui com medo de andar duas quadras sozinhas, com medo de não fazer novos amigos tão bons, com medo de descobrir quem era. Ainda encontro hoje algumas semelhanças àquela menina, mas foi nessa cidade que me permiti transformar mulher e onde descobrir que transformar em mulher é todos os dias da vida e não algo acabado.
Cada rua que andei tinha uma memória, agora misturando infância-adolescência-universitária sinto orgulho e aquela saudade, aquela saudade boa de sentir de quando vivemos tudo, de quando fechamos um ciclo sem deixar nada pendente e não queremos voltar, por maior que seja o sorriso causado pelas lembranças.
Estou num ônibus indo pra um encontro feminista, o último comp graduanda e a vida não poderia ser mais gentil comigo me deixando fechar esse curso com chave de ouro.
Eu não saio daqui só psicóloga. Eu saio daqui feminista, sapatão, maconheira. Eu saio daqui com a mesma vontade de mudar o mundo que eu cheguei. Eu saio leve porque me encher de mim mesma causa leveza. Eu saio deixando a porta aberta, sem data pra voltar.
Eu vim pra cá com medo de me encontrar. Dizem que medo é desejo. Deve ser por isso que eu desenvolvi pânico. E deve ser por isso que me curei dele. Obrigada, Rio das Ostras, por ter me proporcionado os melhores e piores dias da minha vida, quando a gente encontra a gente é assim mesmo.
Estou pronta pra encontrar a nova Amanda que já existe em mim. Pra ser mais uma vez transformada por uma cidade, por uma universidade, por outras pessoas. Sinto que eu só expando por caber tanto em mim e por eu ser tantas. Talvez viver, seja se expandir até explodir (e enfim deixar de existir).

Na primeira semana de aula meu professor me disse que se não entrássemos um e saíssemos outro daqui, senão destruíssemos tudo que acreditávamos ser pra construir de novo, poderíamos voltar e fazer tudo de novo. Deve ser por querer dar a voltar completa na des/reconstrução que demorei tanto aqui. Eu cumpri, enfim, minha primeira e única tarefa que levei à sério: sou outra, o rio e eu nunca mais seremos os mesmos.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Seu ganho secundário é uma ilusão.

Seu ganho secundário é uma ilusão.
Seu ganho secundário é uma ilusão.
Seu ganho secundário é uma ilusão.
Seu ganho secundário é uma ilusão.
Seu ganho secundário é uma ilusão.
Seu ganho secundário é uma ilusão.
Seu ganho secundário é uma ilusão.
Seu ganho secundário é uma ilusão.
Seu ganho secundário é uma ilusão.
Seu ganho secundário é uma ilusão.
Seu ganho secundário é uma ilusão.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Abusivo

"Eu não sei como a gente não percebia o quanto o relacionamento de vocês era abusivo. Tudo que eu lembro é que você chorava muito, todos os dias saía de dentro do quarto de vocês chorando pelo menos uma vez. Eu ficava pensando que talvez você fosse mais triste do que feliz com ele, mas eu não sabia como te dizer isso.  Desculpa não ter te ajudado a perceber e sair desse buraco".

terça-feira, 22 de março de 2016

Senhora, e agora?

Acordo com o reflexo da luz começando a entrar pela janela e você nem se move. Deitada dentro do meu abraço, linda, fazendo um bico fofo com a boca. Você fica ainda mais rosa pela manhã, eu já te disse?
Lá fora tem um mundo de coisas que eu preciso fazer, mas fecho os olhos e ignoro, só hoje. Fecho os olhos e sinto a sua respiração quente no meu peito, sem deixar de pensar na sorte que eu tenho. Tento dormir e acabo cochilando, até que você acorda, me vê e sorri. Ver você sorrir pra mim toda vez que acorda ao meu lado é meu presente favorito. A gente se abraça e eu te conto que sonhei que a gente esquiava na neve, você ri e a gente combina de viajar pra neve de novo em breve. Você faz menção de voltar a dormir, eu levanto e te digo que to indo preparar nosso café, "fica acordada".
Faço um queijo quente, um copão de café e um suco de laranja com cenoura e volto pro quarto. Você tá de bruços mexendo no celular. Senta na cama, me dá um beijo agradecendo e voltamos pros nossos celulares enquanto comemos.
- preciso estudar. - você diz
- eu também. - eu respondo
Combinamos de tomar banho, ir ao mercado e voltar pra estudar. Então a gente toma banho juntas, vai ao mercado juntas e preparamos juntas um almoço bem verde. Ou melhor, você prepara enquanto eu fico sentada te olhando e auxiliando. Enquanto cozinha, você me conta da sua avó, da sua cidade, do show que você que ir, de como foi o fim de semana passado. A gente ri, a gente ri muito de tudo. E eu te abraço por trás enquanto você ta mexendo a panela no fogão pedindo a qualquer força que tiver me ouvindo pra que você permaneça na minha vida, mesmo que eu saiba que tudo passa. Você parece ouvir meus pensamentos, vira, me abraça e diz que me ama. Me diz que eu sou o seu amorzinho, sua companheira de vida e que você ta muito feliz comigo.
A gente come e senta pra estudar. Eu paro 10 minutos depois pra fazer café. Volto e a gente fica em silêncio, lado a lado, lendo e escrevendo sem parar. É bom olhar pro lado e te ver ali imersa nas suas teorias. É bom estar imersa nas minhas acompanhada de você.
As horas se passam, anoitece, você fecha o notebook dizendo "chega por hoje" e eu digo que to terminando o último parágrafo. Termino e te chamo pra tomar uma cerveja no boteco da esquina. Você topa, mas diz que não pode voltar tarde. A gente toma banho juntas de novo, fazendo dancinha ao som de "I follow" no box. Você me ajuda a escolher a minha roupa e eu te digo pra levar um casaco porque o tempo tá virando.
Chegamos no bar e a sinuca está desocupada. É nosso dia de sorte. Você me ganha quase todas e sorri porque ama me ganhar nos jogos e eu sorrio também porque tudo bem perder pra alguém que sorri assim. A gente fica muito bêbadas, contando casos, gargalhando. Alguém começa a ficar violão e a gente chega perto da rodinha pra cantar junto. Você fuma um cigarro enquanto canta e eu queria fotografar essa cena pra guardar pra sempre. Você me chama pra ir embora e eu te peço pra ficar mais uma cerveja. Claro que você concorda. A gente volta pra nossa mesa. Te pergunto se você quer dormir lá em casa de novo, você topa dizendo que ta meio tarde pra ir pra casa. E eu rio te dizendo pra você parar de inventar desculpa que todo mundo ja sabia que você ia voltar pra dormir comigo. Você faz bico e eu te mordo. A gente paga a conta e volta pra casa. Você me obriga a tomar banho de novo e escovar os dentes ou você não vai me beijar. Eu resmungo, mas a contrapartida é eficiente então eu vou. Eu tiro a roupa e deito na cama, você coloca uma camisa listrada e me abraça.
- você é o amor da minha vida - você me diz.
- olha quem ta bêbada!
- to falando sério, sua idiota!
- você também é o amor da minha vida. Eu te amo muito.
- eu também. Bons sonhos.
- pra você também.
Dormimos.

Acordo dentro de um ônibus e forço a memória a fim de reconhecer a estrada. Estou viajando sozinha. Minha cabeça dói. Te procuro ao meu lado. Eu choro. Foi só um sonho das memórias. Eu choro mais forte. Meu coração dói de uma saudade incontrolável. Tudo que a gente foi e não é mais ainda estraçalha meu coração. Todos os dias.